terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

«Carta aos Pais» do cientista Manuel Paiva, redigida pela equipa «Alquimistas» (Concurso: «Se eu fosse... cientista!)

De acordo com o regulamento do concurso «Se eu fosse... cientista!», Ciência Hoje/ Ciência Viva, a primeira prova consistiu numa redacção de uma «Carta aos Pais» em que o cientista escolhido por cada equipa explica aos progenitores (responsáveis ou tutores), enquanto jovem, por que razão escolheu a ciência como objectivo de vida e a área científica abraçada.
A equipa «Alquimistas» superou com sucesso esta primeira prova, tendo-se classificado entre as dez primeiras equipas num conjunto de 245 equipas.


«Carta aos Pais»



Um Adeus Convicto




Prova enviada pela equipa: ALQUIMISTAS
Cientista: Manuel Paiva


Bruxelas, 20 de Dezembro de 1965




Queridos e extremosos pais,


Espero que esta carta vos encontre bem. Por estas bandas o tempo anda incerto com um frio de enregelar. O céu permanece estranhamente aveludado e coberto de rosa, ameaçando um forte nevão.

Ponderei bastante antes de pôr no papel as palavras adequadas, mas nunca me senti tão confiante, tão certo da causa que me move. O país que tomei como meu durante os verdes anos da minha juventude já não conseguia satisfazer as minhas necessidades. Sentia-me aprisionado nesse pequeno país, sufocado pelo regime em vigor e convicto de que ele já não era para mim. Recordo-me de discutir com o meu professor de Filosofia e afirmar com absoluta certeza que em Portugal, onde a liberdade é um conceito desconhecido, não educaria os meus filhos.

Vieram-me à memória os tempos despreocupados, tempos de criança inocente, em que trocava impressões com o senhor António, o jornaleiro que duas vezes por semana trabalhava na nossa horta. E lembro-me claramente, agora que tenho de reviver esses momentos passados na escrita destas palavras, de lhe ter perguntado: Pensa que o Homem um dia chegará à Lua? E em resposta obtive: Não. Isso são coisas de Deus. Embora fosse, como sabem, uma pessoa muito inteligente e viajada, o senhor António caracterizava plenamente uma sociedade demasiado agarrada ao catolicismo e pejada de preconceitos.

Despontou a vocação para a Ciência quando tive a professora Maria de Lurdes a dar-me aulas. Ora, não foram só a sua beleza e jovialidade que me despertaram o interesse, como também a sua atenção em mostrar como poderíamos aplicar de maneira prática os seus ensinamentos de Físico-Química.

Recorda-se, pai, daquele episódio caricato, da improvisada operação cirúrgica que fez à galinha com a agulha de coser da mãe? A minha postura corajosa levou-o a crer que a minha vocação era ser cirurgião. Mas dentro de mim crescia a pertinente paixão pela Física. A Ciência Nuclear não estava exactamente nos meus planos de infância, mas começa a fazer parte dos contornos do meu futuro. É da Ciência que escolho viver e dela tirar o maior dos partidos.

As alegres conversas de rapaz sobre os mais recentes progressos científicos coloriam as manhãs passadas no eléctrico a caminho do colégio. As pequenas e secretas trocas de informações eram feitas com os colegas quase clandestinamente.

Sendo um dos meus motivos para além da orientação dos professores, Portugal em plena época de ditadura censura os sonhos de todos aqueles que pretendem alcançar um futuro prodigioso. A minha concepção de liberdade nunca se encaixou nesse país. Num país onde reina a censura inflamada pela defesa católica, é impossível seguir uma carreira baseada no progresso.

Você, mãe, com toda a sua inteligência do afecto feminino, compreendeu que seria difícil para mim retornar definitivamente a Portugal.

Neste momento da minha vida só tornaria a fazer uma pergunta ao Senhor António: Acha que o Homem conquistará o Espaço? Pertinente questão esta, pois se eu não me inclinasse para ser cientista seria astronauta!

Estou satisfeito e feliz com a escolha que fiz. Estou na plenitude da minha satisfação e já consigo antever uma carreira promissora compensada pelo empenho que sempre dedico à Ciência.

Agradeço-vos genuinamente pelo afecto e pela tranquila infância que me proporcionaram.


Com carinho,

Manuel Paiva


Os nossos parabéns às alunas Andreia Viegas, Ingrid Mayline e Marta Martins pela sua prestação nesta prova. Esperamos igual empenho na superação da segunda etapa do concurso!

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