quarta-feira, 3 de março de 2010

Uma leitura de «Caim», de José Saramago



A escolha de leitura para este mês recaiu sobre o último livro de José Saramago, Caim. Escolhi-o não só por ser uma novidade no mundo literário, mas também porque o seu título me despertou interesse, pois refere-se a uma personagem da Bíblia e, tal como em outros livros, o autor critica a fé inquebrantável e absoluta. Esta opinião do autor é visível na capa, onde simplesmente aparece a imagem do filho de Deus, com um sinal na testa, que indica, na minha opinião, um disparo, demonstrando que, para o autor, este não é digno de confiança e deve ser morto. A contra-capa partilha da mesma ideia, citando uma frase de “Hebreus”.
Este novo livro de Saramago não se desvia do tema principal abordado pelo autor em algumas das suas obras, como n’ O Evangelho segundo Jesus Cristo, por exemplo.


José Saramago, filho e neto de camponeses sem terras, nasceu na aldeia de Azinhaga, no dia 16 de Novembro de 1922, embora tenha vivido a maior parte da sua vida na capital. Fez estudos secundários (liceal e técnico) que não pode prosseguir devido a dificuldades económicas. Durante toda a sua vida teve várias profissões, no entanto, em 1947, publicou o seu primeiro livro, um romance: Terra do pecado.Trabalhou durante vários anos em editoras e jornais, mas a partir de 1976 passou a viver apenas do seu trabalho literário, publicando várias obras, como Memorial do Convento (1982), O ano da morte de Ricardo Reis (1984), O Ensaio sobre a cegueira (1995) e Caim (2009). Contudo, o ano mais importante da sua carreira foi 1998, quando lhe foi atribuído o Prémio Nobel da Literatura.
Em Caim é mais uma vez explícita a ideia que o autor não recua diante de nada nem procura subterfúgios no momento de abordar o que, durante milénios, em todas as culturas e civilizações foi considerado intocável e não nomeável: a divindade e o conjunto de normas e preceitos que os homens estabelecem em torno de essa figura para exigir a si mesmos, ou a outros, fé inquebrantável e absoluta, em que tudo se justifica, desde negar-se a si mesmo até à extenuação, morrer oferecido em sacrifício ou matar em nome de Deus.Um dos momentos da narração que me cativou foi quando, no capítulo 6, Deus ordenou a Abraão, um adulto de certa idade, que lhe sacrificasse o próprio filho, Isaac, para testar a sua fé. E este assim o fez. Realizou uma viagem de três dias, para chegar ao monte ordenado pelo senhor, acomodou a lenha por cima dele, atou-o e, ao mesmo tempo que segurava o pobre braço do filho, empunhou a faca para lhe cortar a garganta. A sorte de Isaac foi Caim, a personagem principal desta narrativa, que lhe agarrou o braço e o impediu de tal loucura. Este momento da narração é um dos mais marcantes, pois, para mim, é impensável um pai matar o seu próprio filho, para mostrar a sua fé perante Deus. E é esta a ideia fulcral que Saramago pretende transmitir aos seus leitores, que o Senhor não é pessoa em quem se possa confiar.

A escrita de José Saramago é marcada por frases e períodos compridos, usando a pontuação de uma maneira não convencional. Os diálogos das personagens são inseridos nos próprios parágrafos que os antecedem, de forma que não existem travessões nos seus livros: este tipo de marcação das falas propicia uma forte sensação de fluxo de consciência, a ponto do leitor chegar a confundir-se se um certo diálogo foi real ou apenas um pensamento. Muitas das suas frases ocupam mais de uma página, usando vírgulas onde a maioria dos escritores usaria pontos finais.

É um livro polémico, sem dúvida. Sobretudo para quem for crente, como é o meu caso. No entanto, ao ler este livro penso que sou levada a reflectir sobre algumas questões sem pôr em causa a minha crença. Por outro lado, julgo que esta obra é literariamente boa com leitura muito simples e apelativa.A única coisa que realmente não me agradou muito foi o final. Penso que surge como um remate abrupto e fraco, tendo em conta todo o conteúdo do livro. Dá a sensação que José Saramago chegou ali e não lhe apeteceu escrever mais.


SARAMAGO, José, Caim, 4ª edição, Caminho, LISBOA, Outubro 2009, 181p.




Ana Raquel Claro, 12ºA2

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